Sinopse CORPO ESTRANHO
Esta mudança de tom poderia parecer esquisita, pois o acento nao mais decorre de assunto, nem das referencias óbvias das alusoes doentias. Nao mais Cruz e Souza e Augusto dos Anjos; agora as referencias sao outras, algum Drummond de Claro Enigma, Joao Cabral, algum Borges. Com eles, Plínio inflecte a ironia, mantendo a melancolia agora na chave da linguagem mais pura, sem alegoria. O tom meio burlesco desaparece, com que a meditaçao toma, finalmente, o rumo mais da poesia, menos da filosofia. Efeito, talvez, da ascese propiciada, nao pela platonica descida ad inferos, mas pela conquista da única epopeia de salvaçao à nossa disposiçao:vida toda linguagem.
Mas a visada das altas paragens poéticas é continuamente desconstruída por designaçoes que pelo seu nao-senso produzem efeitos grotescos: humor que contraria a ironia socrática e as platonicas ascensoes. Com isto o sujeito é descentrado transformando-se antes em espetáculo que em ser meditativo. Um realismo grotesco toma o lugar dos simbolismos e desrealiza a suposta intimidade, ao substituir o decoro da linguagem por figuraçoes em que se reconhece o trabalho, inconsciente, de elaboraçao que espanca a morte: melancolia.